Palavra por palavra
Arquivado em (Textos a toa) por Rogério Bolanho em 14/11/2009
0
“Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu.
A gente estancou de repente ou foi o mundo então que cresceu?”
Quem me conhece sabe que cresci ouvindo Chico Buarque, Caetano veloso, Milton Nascimento e outros, muitos outros, poderia fazer aqui uma lista imensa que passaria por diversos gêneros que vão da simplicidade de Adoniran Barbosa, Beto Guedes e Luiz Gonzaga, passa pelo preciosismo de Tom Jobim e vai parar lá pelos lados da arrumadinha Bossa Nova de cantada por João Gilberto. Todos estes, todos mesmo, tinham como característica essencial a perfeita manipulação das palavras. Sempre tive prazer por ouvir um belo verso e sempre cri que a palavra tem um poder descomunal.
Minhas palavras podem construir ou destruir qualquer coisa. Minhas palavras tem o peso do mundo. “Mundo, vasto mundo, mais vasto é meu coração. Se eu me chamasse Raimundo seria uma rima e não uma solução”. Não, não estou me superestimando, não me falta a devida modéstia e nem sou arrogante ou prepotente, me generalizo como um ser humano qualquer… Eu, você, o padeiro, o lixeiro… tanto faz, o eu neste texto pode ser eu mesmo, você ou qualquer outro eu… As nossas palavras contém em si mesmas o poder de construir ou destruir.
Certas canções que ouço cabem tão dentro de mim que perguntar carece: "Como não fui eu que fiz?!". É bem assim, a palavra encontra a emoção ou planta a emoção? Ela é manipulada ou manipula? De arma se transforma em armadilha onde facilmente se cai. As emoções são lançadas ou captadas?
“Sentou pra descansar como se fosse um príncipe!” é lindo e falso como são falsos todos os sentimentos que jorram desta mina de falsidade que é o coração. Assim, as palavras que brotam dele, até mesmo neste mastigado texto, acabam por se contaminar, palavra por palavra querem no fundo dizer: não confie na palavra, não na minha, não na do homem, não na do meu eu.
“Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo!” é tolo, como toda palavra que acaba de ser proferida, pois, passando pelo coração, todas são tolas e inúteis. Estas são tolas, as de dois parágrafos atrás também e as próximas, não tenha dúvidas: foram, são e serão. Sempre.
A palavra é vil, é usurpadora, é mentirosa e desonesta. A palavra é o pior do ser humano. A palavra é boa, real, verdadeira e exemplo de honestidade. A palavra é o que faz o ser humano ser humano. Como decidir? Como sair deste quebra-cabeças sem luz? Como decidir em qual confiar? Qual é a falsa e qual a verdadeira se ambas podem ser falsas e verdadeiras simultaneamente?
“Nós aprendemos palavras duras, como dizer perdi, perdi. Palavras tontas, essas palavras, quem falou não está mais aqui!”. Palavra bem dita, palavra mal dita, palavra nem dita. Cada palavra em sí mesma contém o amargo e o doce e palavra por palavra eu sou muito mais a palavra que vem de Deus, palavra por palavra eu prefiro o amargo de Deus ao doce do homem, palavra por palavra eu prefiro a exortação dos céus à exaltação do homem.
Palavra por palavra, queria recolher todas as palavras e aprisiona-las definitivamente. Palavra por palavra, sinceramente, esqueça todas estas.
Rogério Bolanho



































